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Memória e História: Rio Grande e o Tempo Cosmológico

RIO GRANDE E O TEMPO COSMOLÓGICO

Prof. Dr. Luiz Henrique Torres*

 A cosmologia é um campo do conhecimento voltado a investigação da origem e evolução do Cosmos. Segundo Carl Sagan, o Cosmos “é tudo o que existe, que existiu ou que existirá” e nosso futuro depende de quanto saibamos sobre ele. Num questionamento em nível temporal, constatamos que os cinco milhões de anos de experiência humana (quando surgem os primeiros hominídeos na África), constituem um tempo recente frente ao abismo da temporalidade cósmica onde reside nossas origens. Possuímos uma consistência material, um invólucro frágil e complexo que concentra energia orientada pelo instinto, hormônios e cérebro, voltado a desenvolver atividades num período normalmente inferior a cem anos. Esse invólucro é constituído de tecidos, órgãos, células, componentes sanguíneos, os quais são formados por átomos e partículas. Nossos laços com o Cosmos estão no nosso corpo: somos porções mínimas de matéria produzida no interior de estrelas que lançaram elementos químicos mais pesados na poeira cósmica que formaria o planeta Terra a cerca de 4,6 bilhões de anos.

CALENDÁRIO CÓSMICO

 Carl Sagan, no livro Os Dragões do Éden, contribuiu para uma compreensão da temporalidade e destacou nossa limitada percepção cosmológica. Pressupondo que o Cosmos originou-se a 14,8 bilhões de anos (com o Big Bang) e convertendo esse período num calendário de doze meses (de janeiro a dezembro), Sagan propõe a seguinte visualização: grande explosão no dia 1º de janeiro do ano cósmico; origem da Via Láctea no dia 1º de maio; origem do sistema solar no dia 9 de setembro; formação da Terra no dia 14 de setembro; origem da vida (unicelular) no dia 25 de setembro; formação das rochas mais antigas no dia 1º de novembro; primeiros dinossauros no dia 24 de dezembro; extinção dos dinossauros no dia 28 de dezembro; primeiros seres humanos (Australopithecus) no dia 31 de dezembro às 22h30min; uso disseminado de artefatos de pedra no dia 31 de dezembro às 23 horas; revolução agrícola (dez mil anos atrás) às 23h59min20s; primeiras dinastias na Suméria e Egito às 23h59min35s; nascimento de Cristo às 23h59min56s; descoberta da América às 23h59min59s. No último segundo do calendário, que no Ocidente corresponde à História Moderna e Contemporânea, ocorreu o fortalecimento e derrocada do absolutismo, as revoluções burguesas, a revolução industrial, a revolução russa, as utopias e os conflitos entre capital e trabalho, as grandes guerras mundiais do século XX, a corrida espacial e a crise do leste europeu. A cidade do Rio Grande surge na segunda metade do último segundo. Nos últimos milésimos de segundo surgem as universidade no Brasil e ainda mais recente, em 1969, é criada a Universidade Federal do Rio Grande.

No último segundo deste calendário, desde o renascimento intelectual do século 16, o homem sapiens sp. busca estabelecer as bases de uma reflexão racional, fundada em teorias sobre o Cosmos. E estas interpretações buscam explicar os segundos, minutos, horas e meses anteriores ao tempo presente.

 RIO GRANDE E A LONGA DURAÇÃO

 A cidade do Rio Grande teve como início de seu povoamento europeu a primeira metade do século 18, com a chegada de uma frota naval e a fundação de um presídio militar e demais fortificações. Entretanto, antes das disputas entre portugueses e espanhóis pelos territórios da Bacia Platina Oriental, tivemos uma história de maior duração. Corresponde aos últimos doze mil anos antes do presente, em que populações com diversificadas tecnologias e adaptação ao meio ambiente exploraram os diferenciados ecossistemas do planalto, campanha, litoral e vale dos rios. De caçadores-coletores a horticultores de floresta tropical e subtropical, a Bacia Platina estava unificada pela diversidade de povoamentos. A história platina, onde a cidade do Rio Grande está inserida, constitui também a história da caminhada humana desde o Continente Africano e sua dispersão pelo Oriente, Velho Mundo, Continente Americano e Brasil. Somos uma das últimas fronteiras na expansão de nossos antepassados, com suas bagagens genéticas e culturais.

A cidade, surgida da geopolítica da conquista, desencadeou sua urbanização lutando contra as dunas e os ventos que recobriam as ruas, trazendo contínuas camadas de areia. Em outras dunas e elevações, formadas há milênios, estão os vestígios de outras populações e modo-de-vida, que são os registros de sítios arqueológicos com cerâmica Vieira. Ambas as ocupações recorrem e dependem, em diferentes níveis, da Lagoa e do Oceano para sobreviverem.

A barra do Rio Grande com seus naufrágios e fantasmas, dinamizou a cidade com o universo exterior. O comércio portuário movimentou mercadorias e colocou a cidade no mapa do capitalismo nacional e internacional com os caminhos de ferro, que dirigem a produção para o porto. A temporalidade da produção industrial em uma sociedade tecnológica terceiro-mundista, são momentos de uma história muito anterior, onde caçadores, coletores, pescadores, horticultores, pecuaristas, agricultores, comerciantes, portuários, proletários e empresários, podem ser metodologicamente colocados num plano de inteligibilidade, buscando uma causalidade que lhes dê algum sentido em comum, ou seja, a idéia de humanidade: produção e reprodução do cotidiano e dinâmica sócio-cultural.

TEMPO E TRANSITORIEDADE

 Entender como produzimos e reproduzimos nossa porção de humanidade (apropriação do espaço e da tecnologia), como organizamos sócio-economicamente a desigualdade, são elementos fundamentais para nos definir e refletir sobre nossas possibilidades de sobrevivência no planeta. Nessa direção, os nossos antepassados, ameríndios, europeus ou africanos, não consistem num mero vestígio arqueológico ou histórico, que interesse a alguns especialistas ou a roteiristas para criarem personagens. As populações que povoaram Rio Grande viveram num espaço com determinada tecnologia, numa organização sócio-econômica de igualdade ou desigualdade na distribuição dos bens, ritualizando e dando sentido a sua existência e, especialmente, viveram a crise da transitoriedade biológica.

Nasceram e morreram encontrando diferentes respostas para esses limites. Partilharam a mesma porção da superfície do planeta, desconhecendo ou não que a Terra gira em torno de uma estrela e que fazemos parte do sistema solar, o qual está situado a trinta mil anos-luz do centro de nossa galáxia, que é apenas uma das centenas de bilhões de galáxias que constituem o Cosmos e que talvez seja apenas um dos Cosmos separados de outros por bilhões de anos-luz de distância.

O período de ocupação humana em Rio Grande, registra uma fração mínima de uma temporalidade mais ampla que a ciência constantemente interroga e onde a imaginação viaja.

* Prof. Doutor Luiz Henrique Torres, graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Santa Maria, Especialização em História da Cultura Brasileira, Mestrado em História e Doutorado em História do Brasil. Professor da FURG, com experiência na historiografia do Rio Grande do Sul e missioneira, história e historiografia da cidade do Rio Grande e processos históricos na zona costeira do Brasil. Email: lht2@bol.com.br

 

 

 

 

 

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