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Memória e História: A Biblioteca Rio-Grandense

A BIBLIOTECA RIO-GRANDENSE

 

Prof. Dr. Luiz Henrique Torres*

Uma cidade cuja historicidade está ligada aos períodos colonial, imperial e republicano preserva em seu patrimônio múltiplas experiências culturais. Um dos espaços de preservação da memória escrita é a Biblioteca Rio-Grandense que foi fundada em agosto de 1846 como um Gabinete de Leitura. Ao longo das décadas o acervo bibliográfico e de periódicos foi crescendo, tornando-se um dos mais importantes do Brasil.

 Ata da Fundação

O documento de fundação do Gabinete de Leitura que daria origem a Biblioteca Rio-Grandense fez o seguinte registro daquele acontecimento: “Na sala do prédio sito à rua da Praia, de propriedade do Sr. Cândido Alves Pereira e onde funciona a sociedade bailante, por convite do senhor João Barbosa Coelho, reuniram-se, na tarde de 15 de agosto de 1846, os cidadãos João Barbosa Coelho, Manoel José da Silva Bastos, José Maria Pires de Carvalho, Serafim José Vasques, Francisco de Paula Cardoso, Thomé Rodrigues Vasques, José Marques Vaz de Carvalho Vicente Tourinho Filho, João Joaquim Fernandes Dias, Paulino Alves Granja, Manoel José Antunes Guimarães, João José de Andrade, Antônio Gomes de Oliveira Magano, Gaspar José Martins de Araújo, Antônio Luiz Machado, Francisco Pinto de Carvalho, Frutuoso Machado da Cunha, Manoel Coelho da Rocha Júnior, João da Costa Pinto, José Manoel de Lima, Manoel Luiz Cardoso Guimarães e Eduardo Augusto Machado – para fundarem o gabinete de leitura. Dentre os beneméritos conta a biblioteca os nomes do barão de Villa Isabel, Alfredo Luiz de Mello, Cipião Ferreira, João Luiz Viana, Benjamin Flores, dr Carlos Laudares, Luiz Alexandre Duarte, Arnaldo José Pereira, dr. Moisés Marcondes, Joaquim de Lima Frazão, José Marques Vaz de Carvalho, Carlos Ossola, Visconde Pinto da Rocha.”

Fortunato Pimental ao visitar a Biblioteca na primeira metade da década de 1940, afirma que encontrou um esmerado serviço de fichário, estufas para desinfecção de livros, armários especiais para coleções de jornais, prateleiras estucadas, além de notável museu. “Vimos estantes literalmente ocupadas por livros e manuscritos raros, paredes cobertas por mapas, quadros científicos, retratos de homens ilustres nas artes e nas ciências guardados como relíquias de uma religião augusta, de um culto santo, cujo apostolado dignifica o homem e enobrece sua missão na terra, estreitando os laços de amor que vinculam a família humana. Aqueles livros contém em si a marcha da humanidade através dos séculos, conservando fotografadas para sempre as impressões de todos os tempos, e registram a tradição bíblica da grande família humana, desde o alvorecer do pensamento até ao mais intenso fulgor da inteligência e do gênio”, afirmou Pimentel.

Na década de 1940, contava a cidade do Rio Grande com algumas bibliotecas de menor porte como a da Sociedade Polonesa Águia Branca, fundada em 1896; da Sociedade Portuguesa de Beneficência, fundada em 1859; da Sociedade Espírita Luz Beneficiente, fundada em 1909; do Clube Saca-rolhas, fundada em 1878 e da União Operária, que remonta ao final do século XIX.

 O Histórico da Biblioteca

 Segundo informações levantadas pelo historiador rio-grandino Edgar Fontoura, a data de fundação da Biblioteca Rio-Grandense é 15 de agosto de 1846, por iniciativa e apelo de Barbosa Coelho dirigido a um grupo da elite local quando de um encontro na residência de José Antonio Ramos. O nome inicial foi Gabinete de Leitura sendo o primeiro presidente Barbosa Coelho e o primeiro secretário Manoel Coelho da Rocha Júnior. Os estatutos foram aprovados nos dias 21 e 22 de setembro de 1846 e o primeiro bibliotecário foi o próprio Barbosa Coelho. O prédio inaugural situava-se num sobrado localizado à rua do Arsenal (rua Ewbank). A primeira compra de livros foi efetuada por Barbosa Coelho e a primeira doação foi realizada por Malaquias José Neto. Em 3 de novembro de 1847, a Biblioteca foi instalada no prédio nº 146, 2º andar, à rua da Praia (rua Marechal Floriano).Em 1866 mudou-se para a rua Direita (Bacelar). Conforme Fontoura, frente a difícil situação financeira para garantir a manutenção de suas atividades, surgiu o amparo do Barão de Vila Izabel, o qual tomou várias medidas para restabelecer o prestígio e o crédito da histórica instituição, assumindo a presidência desta em 14 de janeiro de 1878. No dia 4 de junho do mesmo ano, o Gabinete de Leitura foi extinto e surgiu a atual denominação Biblioteca Rio-Grandense. “O instituto perde então os seu caráter de sociedade privada, a sua feição original, assumindo as características de biblioteca popular. Ainda em 1878, A Biblioteca foi transferida para o segundo andar do nº 71 da rua Riachuelo. Ampliando sua atuação educadora, a partir de 7 de março de 1879, tem início as conferências literárias. A conferência inaugural foi proferida pelo então estudante do segundo ano da Faculdade de Direito de São Paulo, Joaquim Francisco de Assis Brasil. Este intelectual que teve um destacado papel político no Rio Grande do Sul, escreveu em 1882 uma história da República Rio-Grandense em direção a constituição de uma história popular de caráter regional. Em 1880, a Biblioteca contava com um acervo de 16 mil volumes o que é considerável para a época.

A aquisição de um prédio mais espaçoso para a Biblioteca, ocorreu na gestão do Visconde Pinto da Rocha (quando a Biblioteca comprou da municipalidade um casarão localizado na esquina das ruas General Netto e Osório – antiga casa da Câmara). O governo municipal adquiriu um prédio (localizado na esquina das ruas General Netto e Floriano Peixoto – atual Prefeitura e antiga residência da família Tigre que fora construída em 1824 pelo comerciante Joaquim Rasgado, sendo após 1886 alugado para os clubes Diógenes e Saca-Rolhas) para a Intendência Municipal e Câmara de Vereadores. Finalmente, no ano de 1900, o chamado “prédio da Câmara” foi desocupado passando a constituir a sede que até hoje guarda o precioso acervo da Biblioteca. As ampliações e reformas ocorridas a partir da década de 1910, promoveram alterações radicais na funcionalidade e estilo do prédio que foi sendo adaptado as necessidades do acervo (ver foto interna da Biblioteca na década de 1920). Em 1917 a Biblioteca contava com 41 mil volumes elevando-se em 1943 a 83 mil.

Portanto, a cerca de um século a atual sede da Biblioteca integrou-se à paisagem histórico-cultural da cidade, localizadndo-se na rua General Osório com Netto, no entorno histórico (Prefeitura Municipal, antigo Quartel, Mercado Público, Alfândega, Capela de São Francisco...) cujo centro é a praça Xavier Ferreira.

* Prof. Doutor Luiz Henrique Torres, graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Santa Maria, Especialização em História da Cultura Brasileira, Mestrado em História e Doutorado em História do Brasil. Professor da FURG, com experiência na historiografia do Rio Grande do Sul e missioneira, história e historiografia da cidade do Rio Grande e processos históricos na zona costeira do Brasil. Email: lht2@bol.com.br

 

 

 

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