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Memória e História: A indústria Rheingantz

A INDÚSTRIA RHEINGANTZ

 

Prof. Dr. Luiz Henrique Torres*

A trajetória desta que foi uma das mais importantes indústrias do Rio Grande do Sul, teve iniciou com as atividades da Rheingatz & Vater, na cidade do Rio Grande no ano de 1873, uma empresa voltada ao manufaturamento de lã ovina e que tornou-se uma importante indústria têxtil em nível de Brasil. Um dos fundadores da empresa, Carlos Guilherme Rheingantz (1849-1909), era filho de Jacob Rheingantz, natural da Renânia, e que participou da criação da Colônia de São Lourenço do Sul. Carlos foi mandado para a Europa com oito anos para realizar estudos cuja ênfase foram as atividades comerciais e industriais. Ele se Casou com a filha do Comendador Miguel Tito de Sá, que junto com o alemão Hermann Vater, foram os primeiros proprietários da indústria têxtil que marcou época.

Conforme o Catálogo da exposição de 1881, a empresa superara as dificuldades iniciais e produzia em escala crescente produtos têxteis. Segundo registrado neste Catálogo, a Rheingantz e Cia trabalhava há 8 anos sempre em movimento progressivo. Seus proprietários, os srs. Rheingantz e Comp., são cidadãos brasileiros. É um estabelecimento sui generis, o primeiro e único de sua classe que existe no Império. Emprega matéria-prima produzida nesta província, isto é, lã crioula e lã mestiça, comprando-as em estado bruto e transformando-as em suas oficinas mediante processos de lavagem, cardagem, fiação, tecelagem, tinturaria e apresto em cobertores encarnados e escuros, baetas de todas as cores, flanelas, xales de diferentes padrões, etc. Ocupa atualmente 160 pessoas dentro do estabelecimento e ainda distribui serviço fora do mesmo a 12 costureiras; emprega os presos da cadeia no serviço de rever as peças e tirar a mão os restos de carapicho e as órfãs do asilo da cidade do Rio Grande na operação de torcer as franjas dos xales. Este pessoal, que se eleva, com os que trabalha fora ao número de 190 a 200 operários, é, com exceção de 4 contramestres, todo nacional. Trabalha 10 horas e meia por dia e mais quando é necessário, com aumento proporcional dos salários.” O maquinário disponível naquele momento compunha-se de 102 máquinas. Conforme informação do Catálogo, “o edifício foi construído especialmente para a fábrica possuindo galpões para armazenas lãs e drogas e fazer separação das lãs. Possui também oficina de ferreiro. O estabelecimento foi premiado na exposição nacional de 1875 e na Universal de Filadélfia em 1876. Os produtos que ora expõe são os de sua manufatura normal atual. Pela sua inspeção e pelo conhecimento das proporções da fábrica se verá que ela é um estabelecimento de real importância e de grandes vantagens para o país, porque é o passo maior que se tem dado entre nós para emancipar o Brasil dos centros produtores da Europa, aproveitando matéria-prima nacional, dando-lhe aumento de valor e fundando uma indústria dificílima, a de fiação e tecelagem das mais trabalhosas das fibras têxteis. Por isto mesma a exposição da Fábrica Nacional de Tecidos de Lã do Rio Grande é uma das mais notáveis e interessantes da seção brasileira”, conclui o texto do Catálogo de 1881.

A sociedade foi extinta em 1881 passando ao controle de Carlos Rheingantz, o qual foi agraciado por Decreto Imperial de 1883, com o título de Comendador. Em 1884 a empresa passou a razão social de Rheingantz & Cia, com ampliação das instalações fabris e montagem de uma nova fábrica, destinada ao fabrico de panos de algodão. Em 1888 o seu capital chegou a 1.000 contos de réis. Em 1891, o Comendador unificou a fábrica de tecido com a produção da matéria-prima (lã). A nova sociedade chamou-se Companhia União Fabril e Pastoril, com um capital de 5.000 contos de réis. Com a Revolução Federalista (1893-95) e os grandes danos causados a produção pastoril durante o conflito, a empresa passou a denominar-se Companhia União Fabril. Em 1904, o Comendador Rheingantz estabeleceu a primeira fiação penteada do Brasil, o que permitiu a fabricação de tecidos finos e casimiras. Com a Primeira Guerra Mundial e a dificuldade de importar artigos têxteis da Europa, a empresa ganhou novo impulso na busca do mercado brasileiro. No ano de 1915, empregava 1.200 operários, com uma produção de 3.440:000$ e um capital de 3.5000$00.

Problemas acompanharam a existência da empresa especialmente os relativos a restrição da demanda de lã de boa qualidade oriunda da criação gaúcha, necessitando importar o produto; a instabilidade cambial na compra de equipamentos e matéria-prima; a difícil inserção no mercado nacional devido ao afastamento geográfico e político dos maiores centros de consumo e decisão; destaca-se também as políticas de proteção de outros estados (elevando os impostos para a circulação do produto) frente a penetração dos produtos têxteis da Rheingantz.

 A INDÚSTRIA E O OPERARIADO

O complexo industrial urbano criado na Rheingantz também era um complexo social e político. A preocupação com a produção e a disciplinarização da mão-de-obra para o trabalho em larga escala, foram constantes. A disposição espacial das casas dos trabalhadores (casas-em-fita), dos engenheiros e técnicos (edificadas conforme o estilo arquitetônico de seus países de origem), mostra um plano urbano racionalizado que aproxima o operário de um ambiente permanente de convívio com a fábrica e a produção. As casas foram construídas a partir de 1885, sendo alugadas por baixos valores pela empresa aos operários no sentido de buscar uma disciplina permanente dos trabalhadores. O surgimento da escola junto ao espaço da fábrica, apresenta um importante papel de socialização, preparação para o trabalho e controle ideológico da atual ou futura força de trabalho. A empresa também voltou-se a assistência social através da criação de caixas de socorros, assistência médica, creches para os filhos de operários e surgimento de sociedades beneficientes. Esta série de medidas, buscavam também afastar o operário dos movimentos sindicais de caráter socialista e anarquista, que proliferaram a partir da década de 1890 até a década de 1920.

Muito ainda será escrito sobre este complexo industrial que está associado ao nome Rheingantz. Infelizmente, a cidade hoje convive com este patrimônio arquitetônico-industrial conhecendo pouco de sua história e observando a decadência deste espaço físico. A potencialidade deste espaço para o resgate histórico-cultural e patrimonial precisa ser continuamente reposto a comunidade e as instâncias de competência.

* Prof. Doutor Luiz Henrique Torres, graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Santa Maria, Especialização em História da Cultura Brasileira, Mestrado em História e Doutorado em História do Brasil. Professor da FURG, com experiência na historiografia do Rio Grande do Sul e missioneira, história e historiografia da cidade do Rio Grande e processos históricos na zona costeira do Brasil. Email: lht2@bol.com.br

 

 

 

 

 

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