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Memória e História: Memórias do Frio

MEMÓRIAS DO FRIO

 

*Prof. Dr. Luiz Henrique Torres

Vivemos num período inter-glacial. Nos últimos dez mil anos a Era do Gelo ficou lentamente para trás assim como a fauna holocênica foi desaparecendo. Se especula que o inverno gaúcho está em extinção mas não é o que se observa. No dia 28 de junho de 2011 a temperatura em Rio Grande chegou a 5,6º positivo e a sensação térmica 11,1º negativo, em meio a uma tempestade de inverno (winter storm) com rajadas de 74km/h. Como dizem no sul, “um frio pra renguiar cusco”.

O cenário que se apresenta no presente, com estações mais definidas ou menos definidas, sofre variações seculares ou milenares de maior ou menor intensidade. A previsão do clima, até o presente, não é uma arte ou ciência de consenso nem entre os especuladores, nem entre os especialistas. O aquecimento global provocado por fatores naturais ou por ação humana também é fator de versões discordantes na comunidade científica. Inclusive as medições de temperatura e precipitação de chuvas é feita, de forma sistemática no Rio Grande do Sul, a apenas um século.

Por mais que a civilização tecnológica no seu crescente otimismo do século 19 em direção ao domínio da natureza através da tecnologia tenha construído mitos nesta relação de subordinação, o fato é que o fator Natureza, nãodomesticado, é uma das variáveis fundamentais que traçará os rumos do processo civlizatório no planeta no século 21. E neste sentido, o clima é um dos aspectos fundamentais na definição da ocupação espacial e dos padrões de produtividade e reprodução do capital. Se o clima atualmente é fator de preocupação, para populações mais antigas, ele foi amplamente decisivo para fixação e desenvolvimento humano.

No Rio Grande do Sul que está geomorfologicamente contextualizado no espaço platino, as paisagens glaciais e pós-glaciais foram fatores de limitação e de ocupação do espaço rio-grandense. Conforme o arqueólogo Arno Kern, imensas geleiras nos Andes, uma pequena calota glacial estabelecida na Patagônia e ventos frios e cortantes soprando do sul para o norte ocasionam o predomínio das condições ambientais frias e secas. Isso desencadeia a ampliação das paisagens vegetais abertas e restrições das espécies adaptadas às condições tropicais. Neste ambiente, a flora e a fauna já estão adaptadas há milênios, desde o auge da última fase da glaciação (entre 20.000 e 18.000 A.P. – Antes do Presente). Nas planícies e nas montanhas os verões deveriam ser apenas temperados e os invernos muito rigorosos, com precipitações de neve nas alturas do planalto meridional. Com a concentração de imensas quantidades de água nas calotas glaciais, o nível do mar estava muito abaixo do atual, colocando toda a plataforma continental à mostra. A corrente fria das Falklands, rumando para o norte ao longo do litoral, contribuía para aumentar a aridez e a seca.

Na transição do período glacial e o início do Holoceno (10.000 A.P.) o Rio Grande do Sul recebe os seus primeiros habitantes, grupos de caçadores-coletores que se instalaram junto ao Rio Uruguai. Conviveu com a fauna gigante e teve de enfrentar as severas condições inóspitas derivadas das baixas temperaturas. Os ambientes ainda são abertos com vegetação rasteira predominante e reduzida presença florestal. Posteriormente, no “Ótimo climático” (5.000 A.P.), a transgressão marinha inundava as planícies costeiras do Brasil meridional e as terras baixas do litoral atlântico do Uruguai. Os grupos que se estabeleceram nesta área, puderam pescar e coletar moluscos em um ambiente muito favorável. As condições tropicais favoreciam a proliferação da fauna lacustre e marinha. Pouco a pouco, o mar recuou aos níveis atuais. Imensas porções de água salgada ficaram isoladas do mar por cordões litorâneos arenosos, dando origem às lagoas e lagunas da planície costeira. Rio Grande começava a nascer e mostrar as suas paisagens próximas ao que hoje conhecemos, num período geológico extremamente recente.

Nestes últimos cinco milênios, inúmeros períodos de frio intenso e neve devem ter recoberto especialmente as paisagens do planalto sul-rio-grandense e também as geadas estiveram presentes na campanha gaúcha e outras áreas. Intensidades não registradas na documentação histórica, mas que foram construindo a chamada “estética do frio” que deixa o rio-grandense com um pé nos Andes e nos confins austrais da América, e por vezes, alheio aos impulsos tropicais da cultura dominante no Brasil.

E ao falar de frio, a neve é o climáx deste imaginário europeu que chega a ser buscado avidamente nas áreas turísticas da Região das Hortências. Registro de queda de neve em alguns municípios do Rio Grande do Sul recuam aos anos de 1816, 1879, 1915, 1918, 1920, 1926, 1928, 1930, 1941, 1944, 1955, 1957, 1965, 1970, 1975, 1979, 1980, 1981, 1984, 1985, 1986, 1990, 1991, 1994, 1996, 1999, 2000 e 2010. No dia 7 de agosto de 1879 o município de Vacaria registrou 2 metros de altura de neve. Foi a maior nevasca ja registrada no Brasil.

De nossos antepassados de mais de 12.000 anos atrás até a sociedade rio-grandense no presente, o clima continua a ser um dos aspectos mais relevantes e intrigantes no imaginário das sociedades humanas.

* Prof. Doutor Luiz Henrique Torres, graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Santa Maria, Especialização em História da Cultura Brasileira, Mestrado em História e Doutorado em História do Brasil. Professor da FURG, com experiência na historiografia do Rio Grande do Sul e missioneira, história e historiografia da cidade do Rio Grande e processos históricos na zona costeira do Brasil. Email: lht2@bol.com.br

 

 

 

 

 

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